IGREJAS EVANGÉLICAS TRANSFORMADAS EM BALCÃO DE NEGÓCIOS NO BRASIL
***Algumas pressuposições do professor José Carlos Oliveira Chagas sobre a crise nas igrejas pentecostal e neopentecostal no Brasil:
“Por várias razões, o ministério da pregação da palavra de Deus está em crise em muitas igrejas evangélicas atualmente. Alguns sermões são infrutíferos porque seus expoentes simplesmente não vivem o que pregam...
O
descompasso entre a prédica e a vida do pregador é um dos principais
responsáveis pelo fracasso da pregação evangélica em nossos dias. A
sociedade está saturada de gente que prega mas não vive, fala mas não
faz. É tolice pensar que todos aqueles que prega a palavra do Eterno
também praticam-na. Grassa nas igrejas evangélicas os oradores
profissionais, animadores de auditório, pregando sermões com as piores
motivações possíveis; ganância, inveja, sede de poder, busca de
popularidade, etc. E, uma motivação pecaminosa seguida de um
comportamento similar, só poderia ser trágico.
O
pior que pode acontecer ao pregador do Evangelho é proclamar as
verdades libertadoras de Cristo e, ao mesmo tempo, levar uma vida
arraigada no pecado e em total desobediência aos princípios da Palavra
de Deus.
EXPANSÃO QUANTITATIVA
Durante
décadas parte considerável das igrejas evangélicas brasileiras
desprezou a capacidade bíblica e teológica. Julgava tais práticas
irrelevantes e, em alguns casos, perniciosas à manifestação do Espírito
Santo. Tal postura não atenuou a expansão quantitativa da Igreja no
Brasil; revelou, no entanto, sua profunda deficiência bíblica, teológica
e prática...
FRAGILIDADE TEOLÓGICA E PRÁTICA
Pastores,
teólogos, sociólogos, entre outros, concordam que o vertiginoso
crescimento numérico da Igreja Evangélica Brasileira revelou sua
capacidade de arregimentar novos súditos, bem como sua visível
fragilidade bíblica, teológica, doutrinária e prática...
PASTORES SEM NENHUMA FORMAÇÃO
Há
facilidade para se exercer o pastorado no Brasil (pessoas ainda
neófitas ou sem o mínimo preparo bíblico e teológico auto-intitulam-se
pastores/as, alugam um salão e logo passam a ter um grupo de
seguidores...
COMPETIÇÃO ENTRE IGREJAS EVANGÉLICAS
Imagina,
então o que acontece quando há facilidade para se exercer o pastorado
(além de fácil acesso, é promitente), o clima é marcado pela competição e
concorrência, os pressupostos capitalistas (números são indicadores de
sucesso) moldam a visão e ação dos pregadores ? O resultado está diante
dos olhos de quem quer ver...
MOVIMENTO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO
Outro
problema gravíssimo que a pregação autêntica da Palavra de Deus
enfrenta em nossos dias é o movimento filosófico-teológico (...) A
mensagem, que deveria preservar os ensinos de Jesus e dos apóstolos, não
passa de um discurso que apenas promete sucesso econômico, saúde física
e bem-estar à pessoa que assume o papel de herdeira de Deus. Este é um
dos fatores que estão no subsolo da conversão em massa nas igrejas
evangélicas brasileiras atualmente...
PASTORES COM INTENÇÃO PECAMINOSA
Para
piorar a situação parte da liderança cristã, que infelizmente já
ingressou no ministério tendo uma motivação pecaminosa (ganhar dinheiro,
ter visibilidade, projeção social, etc), vendo que o homem pós-moderno
tem a disposição várias opções e pode fazer suas escolhas preferenciais,
entrou pra valer na competição. Não aceita perder fiéis para os seus
concorrentes seja ele tradicional, pentecostal ou neopentecostal. Parece
que vale tudo: desconstruir a imagem do concorrente através de
programas radiofônicos e televisivos, jornais, revistas, livros...e,
simultaneamente, usar os recursos midiáticos, para exaltar a eficiência e
eficácia da sua própria marca no afã de manter os seus, atrair novos, e
arrastar alguns adeptos que estão vinculados à concorrência. Ademais
(...) o desligamento de uma pessoa da igreja traz vários prejuízos:
perde-se em animação e movimento; perde-se prestígio diante de outros
ministros da cidade; perde-se sua capacidade de influir na política
local; perde-se, na geração de receita...
IGREJAS TRANSFORMADAS EM BALCÃO DE NEGÓCIOS
As
principais minudências do pluralismo, mesmo o religioso, são as vastas
alternativas oferecidas ao homem. O problema é quando o pregador dilui a
mensagem de Deus para “fidelizar” a clientela. Logo a igreja vira
empresa, púlpito vira balcão, crente vira cliente, sacerdócio vira
negócio, vocação vira profissão, pastor vira mero gestor...A busca por
números a qualquer preço tem levado à ruína milhares de oradores. E não
somente no Brasil...
O
sucesso (das igrejas) não deve ser calculado por meio de casas cheias e
aplauso popular, mas por meio de corações convictos e convertidos...
PASTORES COMERCIALIZANDO O EVANGELHO
(...)
Muitas pessoas vão à casa de Deus à procura de pão, mas em algumas não
conseguem encontra-lo (...) estão substituindo o pão do céu por outro
alimento, pregando o que o povo quer ouvir e não o que o povo precisa
ouvir, pregando para agradar, não para alimentar, dando palha em vez de
trigo ao povo (Jr 23.28); outras têm comercializado e mercadejado o
Evangelho, além de adulterá-lo; e algumas já estão dando veneno em vez
de pão ao povo...
AINDA HÁ ESPERANÇA NA PREGAÇÃO
Apesar
da evidente crise da pregação e dos pregadores hodiernos (...) não
perdi a fé na prédica: algumas mensagens dadas por Deus para levar o
rebanho à adoração (no culto e na vida!), à proclamação do Evangelho, à
edificação dos santos, à ação social! Nem perdi a fé em todos os
pregadores: alguns são mensageiros de Deus; ainda são e fazem a
diferença: pregam e vivem, santificam-se e capacitam-se, oram
fervorosamente e estudam laboriosamente, crescem em poder e em saber...”
***CHAGAS, José Roberto de Oliveira
Noções de Homilética – Análise Crítica, Histórica e Teológica da Pregação Cristã ( Série CRESCER: Programa de Capacitação Bíblica –Teológica – Prática – Vol. 7)
José Roberto de Oliveira Chagas. Campo Grande (MS): GÊNESEIS, 2009
